Ele é um poema do Drummond. E também um excelente professor. É a força que move montanhas ou montinhos de areia. É a gargalhada mais que perfeita e gostosa. É a intensidade da tempestade e seus ventos. É a memória que não tenho. Desabrochando no seu tempo. Num tempo que nunca será tardio.
Feliz aniversário, David!
Friday, December 27, 2013
Natal, boa comida e companhia
Com a volta do sogrinho prevista para o dia 23 de dezembro já havíamos decidido passar o Natal entre nós. A ceia seria simples, porém com algumas novidades. E eu poderia descansar depois de um mês muito exigente e cansativo em que eu decidi confeccionar todas as prendas natalinas para os professores, terapeutas, amigos queridos... Trabalho gratificante, mas que me colocou para dormir na escuridão da noite muitas vezes. No meio desta agitação toda, dias antes do retorno do sogrinho, troco algumas palavras com a amiga Alê que nos convida para passar o Natal com a sua família e uma amiga dela. Achei a ideia ótima e comecei a revirar os livros em busca de receitas até porque eu não tenho experiência e intimidade nenhuma com o preparativo de pratos tradicionais natalinos. Salvo rabanada. A Alê foi o meu primeiro contato aqui nos EUA antes e quando me mudei, portanto tenho muito carinho por ela e os seus. Lembro-me de ligar para a Alê ansiosa querendo definir nossa ceia para me trazer um pouco de sossego. Ela deve ter achado graça. Risos. E, amiga boa que é, trouxe sossego sim. Nossa ceia foi farta, saborosa e aconchegante. Conforto para os nossos corações que se dividem entre dois continentes. Especialmente em uma época de nostalgia como essa...
O livro que mais consultei foi o Jerusalem do Ottolenghi e de onde saiu a receita de galinha que saboreamos na nossa ceia que também teve: tabule de quinoa com alface, arroz, sopa de lentilha, tender, strogonoff de cogumelos, purê de batatas e torta de frango. Yumyum.
Modo de preparo:
O despertador ausente e a feira
Saturday, December 14, 2013
Ao contrário. Começo pela feira e termino com um recorte da nossa manhã descarrilhada.
Quando Teju Cole pipocou na minha linha do tempo me lembrei de fato. Brasa quente na memória. A feira foi pequena e bem modesta. Havia três mesas vendendo todo tipo de quinquilharia. Muito bibelô, toalha de mesa, enfeites dos mais variados, principalmente natalinos. Eu mesma ia e vinha da minha mesa fuçar junto com as funcionárias do convento que desciam em duplas ou em grupos de cinco, oito, saindo de lá carregadas. No centro havia a mesa do fazendeiro Don vendendo o surplus de alho da nossa temporada de 2013. Do lado uma das freiras vendendo café da região e seus pães caseiros, além dos cachecóis feitos por algum conhecido dela. Atrás a minha mesa e à esquerda, por último, a mesa de uma freira com a sua arte em quadro, cartões, murais e cerâmica e que me causou um certo fascínio. Eu não sabia que o fazendeiro falava alemão e russo e que trabalhava com refugiados do leste europeu e da África. Em algum momento da nossa conversa eu disse que sentia falta de escrever ficção e daí surgiu a conversa que conecta Teju Cole às cicatrizes de todos os homens e aos poemas da Irmã Barbara. Em algum momento ele mencionou que queria muito colocar no papel a história que escutou da boca de um sobrevivente de guerra russo, mas que algo no processo o bloqueava. Fiquei pensando se a bala nas costas daquela vítima de guerra não teria também levado um pedaço da alma do fazendeiro, aquela que instintivamente nos permite o registro da nossa história. Há suicídios e redenção entre as vítimas de tortura e uma resiliência que ele, com os olhos arregalados, disse nunca ter encontrado antes. E assim seguiu contando os horrores que conheceu através do seu trabalho que são para nós o ponto final de uma guerra enquanto que para os sobrevimentes o recomeço. Tentativas de. E me contou sem pedir desculpas, sem abreviar tremendo sofrimento, entre uma venda e outra, uma trivialidade e outra. Quase como se ele estivesse escrevendo um relatório formal, brutal daquilo que nenhum de nós, no acalanto das nossas casas, um dia viveu.
After learning for the first time how her husband had died, she was asked if she could forgive the man who did it.
Speaking slowly, in one of the native languages, her message came back through the interpreters: “No government can forgive.” Pause. “No commission can forgive.” Pause. “Only I can forgive.” Pause. “And I am not ready to forgive". (De um texto do Cole)
Inner
Branching out
Outter
Seeking
Neither are the whole
but together - There is possibility.
Reach! (Barbara, freira escritora e pintora)
[O despertador ausente. De como eu quase perdi o meu rebolado e a feira]
Acordamos cinco minutos antes do ônibus do David chegar. De novo, pensei comigo. Desci correndo me troquei e abri a geladeira tirando de dentro dela tudo que eu precisava para o café e lancheira das crianças. De longe escutava a Cecília choramingando, a tampa da privada batendo forte e os passos do David descendo a escada correndo. O ônibus chegou. David o ônibus está aqui, filho. Não vai dar tempo, você vai de carro com a mamãe, okay? David, você vai de carro, o k a y?? Exclamava olhando nos olhos dele ainda sem entender bem que o dia era dia. Abri a porta e fiz sinal com a mão de que ele não ia pegar o ônibus. De volta pensei hoje vai ser um daqueles dias, justo hoje o dia da feira de Natal. A Cecília já tinha encontrado o caminho até a cozinha e logo estava puxando a minha calça. Preparei o que deu com ela no colo e assim que pude a coloquei no chão com um morango em uma mão e na outra um potinho com as suas homeopatias. Ufa, ela não protestou.
Orquestra, a Estela tem ensaio!!! Antonio tem como você levá-la? É daqui a dez minutos, às oito. Vamos! Estela enfim aparece dizendo que não ia dar para esperar a lancheira ficar pronta. Vai de almoço da escola hoje. Coloquei água na sua garrafa e uma maçã no bolso da mochila. De volta pro fogão, comecei a preparar a sopa do almoço, um lanche rápido para eu comer na feira. Bendito preparo de véspera: com os legumes e galinha já cortados e temperados foi mais tranquilo que descascar uma banana. E assim a manhã seguiu até a hora d'eu sair para levar as crianças para a escola e voltar para o front. ;)
Ligeira. Respirava porque tinha de fazer aquela manhã, fatia da vidinha, acontecer.
[Balão e música e funeral simbólico pois que cabe tudo isso numa conclusão]
E aconteceu. Fluiu feito rio com direito a chuva na estrada. A feira rendeu uns trocados. Vendi todos os protetores para os lábios e cinco bastidores. Cheguei até a praticar o meu francês básico em um ato de desespero. O público que frequenta estas feiras sabe e muito pechinchar e eu, seguindo a dica do fazendeiro, me deixei cair na conversa delas. Voltei para casa com vontade de mais feira. Refletindo sobre as guerras e o meu sentimento de impotência diante tamanha brutalidade, não dá para se sentir inteiro quando tantos outros estão pela metade. E então como fica, como se vive? Minha esperança era que a sopa e o sorriso da Cecília quando eu abrisse a porta me resgatasse. E clichê por clichê, me resgatou.
Nem sempre é um mar de rosas (and that's okay)
Sunday, October 13, 2013
Eu adoro caprichar na primeira refeição do dia principalmente nos finais de semana. E geralmente nos domingos faço panquecas para nós variando receitas que encontro nos livros e na minha cabeça. Aprecio a ideia de café da manhã *reforçado*, gosto de arrumar a mesa e preparar tudo com calma principalmente porque o marido está em casa para me ajudar e compartilhar desse momento. Nossa comunhão.
Mas nem sempre é um mar de rosas. Há refeições prazerosas e muito harmônicas sim, já outras em que alguém se recusa a comer e esbraveja, ou bate o pé e entra dentro da geladeira como forma de protesto. And that's okay. E como me custa escrever sobre como eu me sinto com relação a estes momentos menos harmônicos. Dependendo do dia, do momento, de como estou me sentindo levo a situação com mais ou menos sabedoria. A parada é tão complexa quanto viver é perigoso. Hoje, a primeira coisa que a Estela disse quando desceu para o café foi: - De novo!?! Todo sábado é a mesma coisa. Na mesma hora o sogrinho intercedeu por mim e disse algo sobre ela ser grata enquanto eu buscava o que responder.
Mas nem sempre eu encontro as palavras certas (ou opto pelo silêncio) e tentando ser compreensiva, enquanto lidava com a minha frustração disse: - Fiz o melhor que pude, filha. Acordei cedo, antes da hora que eu gostaria de ter acordado para preparar o café pra gente poder ir pra fazenda. Seria legal da sua parte demonstrar um pouco de gratidão...
E como se não bastasse completei dizendo que muitas crianças se sentiriam privilegiadas de poder tomar um café como este. E claro, no mesmo instante tive vontade de reformular tudo e deletar também.
Acho que no fundo eu fiquei surpresa com a reação dela, pois não havia ali na mesa nada que não fosse do seu agrado. Porque na minha cabeça se ela não quisesse ovos, havia kefir, se não quisesse kefir havia laranja, torradas, geléia... Estela se retirou e só voltou no finalzinho, super aborrecida. O café não foi o mesmo sem ela. Quando voltou conversamos um pouco mais sobre o nosso aborrecimento, pedi sugestões, me esforcei para escutar com o coração e seguimos adiante com a nossa rotina mais leves por dentro. Havia fazenda e ela sempre cura.
Neste caminho por uma convivência mais pacífica (respeitosa, amorosa, honesta e plena) esbarramos em pequenos desafios que nem sempre são fáceis de transpor e eu sinto que a única maneira de trabalhar com eles é reconhecer nossas limitações (que são apenas nossas e dizem respeito à nossa jornada) e ter paciência conosco (e com o outro) enquanto crescemos. As crianças não têm noção do trabalho físico e mental envolvido nos cuidados do lar por mais que elas participem ativamente dele. E eu nem espero que elas tenham tamanha compreensão. Uma coisa de cada vez...
Ao mesmo tempo sinto que falhei no meu julgamento e fui literal na minha interpretação dos sentimentos da Estela levando para o lado pessoal. Afinal, qual problema em estar enjoada de comer determinado prato?
Preciso ficar de molho para voltar para a realidade mais suave. I hope that's okay.
